Em qualquer consulta médica séria, ninguém começa pela receita. O primeiro passo é sempre o diagnóstico. Exames, perguntas, histórico, análise. Sem um diagnóstico correto, a cura pode não ser alcançada. A Bíblia nos mostra que algo semelhante acontece na vida espiritual.
Antes de experimentarmos a graça que salva, Deus nos conduz a um diagnóstico: a lei. Ela revela a realidade do nosso coração, expõe o pecado e mostra a gravidade do nosso problema diante de um Deus santo. Só após enxergar essa condiç
A lei como espelho, não como cura
Tony Cooke, ao falar sobre graça, resume bem o papel da lei: ela nunca foi dada para salvar, justificar ou tornar alguém justo, mas para mostrar que precisamos de salvação, justificação e justiça. A lei de Deus não é defeituosa; ela escancara o nosso defeito.
Uma das ilustrações usadas por ele é simples e muito clara. Imagine que você acabou de fazer uma refeição com amigos e, ao se levantar, alguém diz: “Você está com molho de espaguete no queixo”. Aquela pessoa não se torna má por apontar o problema; na verdade, está fazendo um bem, ainda que gere certo constrangimento.
Da mesma forma, se você estivesse sozinho, fosse ao banheiro e percebesse no espelho o molho no rosto, o espelho não seria o vilão. Ele apenas revela o que já está ali. Seria absurdo quebrar o espelho de raiva, porque o problema não está no espelho, mas em você.
É exatamente isso que a lei faz:
ela nos mostra a sujeira, mas não tem poder para limpá-la.
Reclamar da lei é como se irritar com o espelho. A função dela é revelar. Mostrar que, por nós mesmos, não alcançamos o padrão de santidade de Deus. Ela aponta o problema, mas não oferece o remédio.
A sala empoeirada e a água do evangelho
John Bunyan, em O Peregrino, reforça essa ideia com uma imagem muito forte. Cristão é conduzido a uma grande sala cheia de poeira, que nunca havia sido varrida. Quando alguém começa a varrer, o pó se levanta em tal quantidade que ele quase não consegue respirar. Em seguida, uma jovem entra, borrifa água no chão e, então, a sala pode ser varrida com alegria.
A cena é explicada assim: a sala representa o coração humano, ainda não alcançado pela graça do evangelho; a poeira é o pecado e a corrupção que nos marcam desde dentro;
o primeiro homem, que tenta varrer, é a lei e a jovem que borrifa água é o evangelho.
Quando a lei entra em cena, a poeira se levanta. O pecado parece “piorar”, tornar-se mais evidente, mais incômodo, mais sufocante. Não porque a lei crie o pecado, mas porque ela o expõe. Ela mostra o que já está lá, mas não tem força para subjugá-lo.
Já o evangelho entra como água: ele não ignora o pó, mas o domina. É pela graça, revelada em Cristo, que o pecado deixa de governar. O coração é purificado, não pela força da lei, mas pela obra de Jesus. A lei revela o problema; o evangelho, pela graça, aplica a solução.
O problema em nós, a solução em Cristo
A lei, por si só, é boa. Ela expressa o caráter de Deus e seu padrão de justiça. Mas, ao ser confrontado com esse padrão, o ser humano descobre algo desconfortável: o problema não está na lei, está em nós.
É por isso que Paulo afirma que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23). A lei não produz o pecado; ela revela que ele já está profundamente entranhado na nossa natureza caída e se manifesta em pensamentos, palavras e obras.
Essa revelação é dolorida, mas necessária. Só reconhece o médico quem sabe que está doente.
Da mesma forma, só se lança na graça quem compreende a própria incapacidade de se salvar.
Na lei, temos o diagnóstico. Em Cristo, encontramos a cura.
Por meio da obra de Jesus, o sacrifício perfeito, somos libertos da condenação e recebemos poder para vencer o pecado. Aquilo que a lei apenas apontava, sem conseguir resolver, Cristo assume e transforma. Nele, o plano original de Deus é restaurado: sermos conformados à sua imagem e semelhança, vivendo em obediência e santidade.
Antes de celebrar a cura, precisamos aceitar o diagnóstico.
Antes de falar da nova vida, precisamos encarar a seriedade da velha condição.
A lei nos leva até a porta da nossa impossibilidade.
Cristo nos conduz para dentro da vida que não poderíamos alcançar sozinhos.
TEXTO BASEADO NO LIVRO “O CAMINHO DA OBEDIÊNCIA” DE LUCIANO SUBIRÁ, ADQUIRA JÁ NA LOJA.ORVALHO.COM