Ao longo da história bíblica, a lei mosaica jamais teve como finalidade apenas regular comportamentos ou estabelecer normas religiosas para um povo específico em um tempo determinado. Desde o princípio, ela carregava em si algo maior: um anúncio antecipado daquilo que Deus realizaria plenamente em Cristo. Por isso, podemos afirmar que a lei possui caráter profético.
O próprio Jesus deixou isso claro ao declarar que “todos os Profetas e a Lei profetizaram até João” (Mateus 11.13). Essa afirmação rompe com a ideia comum de que apenas os profetas tinham uma função preditiva. Cristo inclui a lei nesse mesmo movimento revelatório, mostrando que ela também apontava para algo que ainda estava por vir. Seu papel não era definitivo, mas preparatório.
O apóstolo Paulo reforça essa compreensão ao afirmar que a justiça de Deus, agora manifestada sem a lei, já era testemunhada pela Lei e pelos Profetas (Romanos 3.21). Em outras palavras, aquilo que hoje experimentamos pela fé não surgiu de forma abrupta ou desconectada do Antigo Testamento. A lei antecipava, anunciava e sinalizava o que se revelaria de modo pleno na nova aliança.
Essa natureza profética explica por que Paulo pode dizer que as Escrituras “previram” que Deus justificaria os gentios pela fé (Gálatas 3.8). Se algo foi previsto e anunciado, estamos diante de uma revelação progressiva, não de um sistema que fracassou ou precisou ser descartado.
CUMPRIR NÃO É REVOGAR
Quando Jesus afirmou: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas para cumprir” (Mateus 5.17), ele estabeleceu uma chave essencial para a compreensão do assunto. A lei realmente teve seu tempo de vigência encerrado em Cristo, mas isso não aconteceu por revogação, e sim por cumprimento.
A ideia de revogar carrega o sentido de anular, invalidar ou tornar inútil. Cristo rejeita completamente essa leitura. Ao cumprir a lei, ele não a desqualifica, mas confirma seu propósito. Tudo o que a lei anunciava, de forma tipológica e simbólica, encontrou nele sua realização plena.
Cumprir envolve completar, levar à plenitude, realizar aquilo que estava apenas esboçado. A lei apontava para Cristo como sombra; nele, a realidade se manifestou.
Por isso, nada da lei caiu no vazio. Nenhum detalhe foi descartado arbitrariamente. Tudo o que ela continha como anúncio profético foi levado à sua consumação. Quando esse cumprimento se deu, sua função foi encerrada, não por falha, mas por êxito.
SOMBRAS QUE APONTAVAM PARA A REALIDADE
O Novo Testamento descreve a lei como “sombra dos bens vindouros” (Hebreus 10.1). A sombra não é falsa, mas incompleta. Ela revela contornos, mas não a substância. Os que viveram debaixo da lei enxergavam essas sombras sem conhecer plenamente aquilo que as projetava.
Um exemplo claro disso é o episódio da serpente de bronze no deserto. Jesus afirmou que, assim como Moisés levantou a serpente, ele também seria levantado para que todo o que nele cresse tivesse vida eterna (João 3.14-15). Aquele evento, registrado em Números 21, era uma figura profética da cruz. O que parecia apenas um ato de juízo e misericórdia no deserto apontava, na verdade, para a obra redentora que se manifestaria séculos depois.
O mesmo acontece com a Páscoa. O cordeiro imolado, o sangue aplicado nas portas, a libertação do cativeiro egípcio. Paulo afirma sem hesitação: Cristo é o nosso Cordeiro pascal (1 Coríntios 5.7). A sombra projetada no Êxodo encontrou sua realidade no Calvário.
Esses paralelos se multiplicam por toda a lei. Sacrifícios, festas, sacerdócio, alianças, tudo carregava um anúncio antecipado daquilo que seria revelado em Cristo.
A LEI CONFIRMADA PELA FÉ
Quando Paulo afirma que a fé não anula a lei, mas a confirma (Romanos 3.31), ele está dizendo que o evangelho não desautoriza o Antigo Testamento, mas revela seu verdadeiro sentido. A lei cumpriu exatamente aquilo para o qual foi dada.
O erro não está em reconhecer que a lei teve um tempo determinado, mas em supor que isso significa fracasso ou inutilidade. Pelo contrário, ela foi bem-sucedida em sua missão profética. Preparou o caminho, formou a linguagem, estabeleceu os símbolos e anunciou a obra que Cristo viria realizar.
Por isso, o Antigo Testamento não deve ser descartado nem tratado como um apêndice sem valor. Ele ilustra o que o Novo explica. E quanto mais entendemos essas sombras, mais profundamente compreendemos a grandeza da obra de Cristo.
Ao final, fica claro que nunca houve uma mudança de plano da parte de Deus. O que houve foi o cumprimento de um plano eterno. A lei não foi abandonada como algo que deu errado. Ela foi consumada porque chegou exatamente onde deveria chegar: em Jesus Cristo.
Que essa verdade nos ajude a ler as Escrituras com reverência, entendimento e gratidão, reconhecendo que desde o princípio Deus estava apontando para a redenção que hoje celebramos pela fé.
TEXTO BASEADO NO LIVRO “O CAMINHO DA OBEDIÊNCIA” DE LUCIANO SUBIRÁ, ADQUIRA JÁ NA LOJA.ORVALHO.COM