Um dos grandes desafios da leitura bíblica é compreender corretamente a relação entre o Antigo e o Novo Testamento. Muitos conflitos doutrinários surgem não por negação das Escrituras, mas por uma leitura que ignora o progresso da revelação. A lei ocupa um lugar fundamental nesse debate, especialmente quando se trata de entender sua função, seus limites e, sobretudo, sua duração.
O Novo Testamento é claro ao afirmar que a lei não foi concebida como uma estrutura permanente. Ela cumpriu um papel determinado dentro do plano redentor de Deus e, uma vez alcançado esse propósito, cedeu lugar à revelação plena da graça em Cristo.
A lei dentro da progressão da revelação
Desde o início, a Escritura apresenta a história da redenção como um processo conduzido por Deus. O que foi revelado em um tempo não anulou o que viria depois, mas preparou o caminho. É nesse contexto que a lei deve ser compreendida.
O evangelho de João estabelece uma distinção fundamental ao afirmar que a lei foi dada por intermédio de Moisés, enquanto a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. Essa afirmação não diminui a importância da lei, mas delimita sua função histórica. Ela pertence a uma etapa específica da revelação, enquanto Cristo inaugura uma nova realidade.
A carta aos Hebreus aprofunda essa compreensão ao apresentar a supremacia de Cristo sobre Moisés. Moisés foi fiel como servo na casa de Deus; Cristo, porém, é o Filho sobre essa casa. A diferença não está apenas na função, mas na natureza da missão. A lei foi mediada por um servo; a nova aliança é estabelecida pelo Filho.
A imperfeição que revela a transitoriedade
O autor de Hebreus é ainda mais explícito ao afirmar que, se a primeira aliança fosse perfeita, não haveria necessidade de uma segunda. Essa declaração é decisiva. Ela não sugere um erro moral na lei, mas aponta para sua incapacidade de produzir aquilo que Deus desejava realizar de forma definitiva.
A lei não tinha poder para transformar a natureza humana. Seus sacrifícios não removiam o pecado, apenas o cobriam temporariamente. Ano após ano, a repetição dos rituais evidenciava que algo ainda precisava ser resolvido. A própria estrutura da lei denunciava sua limitação.
Essa imperfeição não foi um acidente no plano de Deus. Ela fazia parte do processo pedagógico pelo qual o Senhor conduzia o seu povo à compreensão da necessidade de algo maior, mais profundo e mais eficaz.
A promessa antecede a lei
O apóstolo Paulo, escrevendo aos gálatas, oferece um argumento decisivo ao lembrar que a promessa feita a Abraão precede a lei em mais de quatro séculos. Isso significa que a base do relacionamento de Deus com o homem nunca foi a lei, mas a promessa.
A lei não anulou a promessa, nem poderia fazê-lo. Pelo contrário, ela foi um desdobramento temporário dentro da história da promessa. Paulo afirma que, se a herança viesse pela lei, deixaria de ser promessa. Mas Deus concedeu a herança gratuitamente, com base na fé.
Esse raciocínio desmonta a ideia de que a lei seria irrevogável. O que é eterno é a promessa. A lei foi acrescentada “até que viesse o descendente”, ou seja, até que Cristo se manifestasse.
O “até que” da lei
A expressão paulina “até que” é uma das chaves mais importantes para compreender o caráter transitório da lei. Ela indica limite, prazo, finalidade. A lei foi acrescentada por causa das transgressões, mas não como solução definitiva para o pecado.
Paulo descreve a lei como um guardião, alguém que exerce tutela por um tempo determinado. Enquanto a fé ainda não havia sido revelada, os homens estavam sob essa tutela. Mas, com a vinda de Cristo, essa função se encerrou.
Permanecer subordinado ao guardião depois da chegada da fé é ignorar o cumprimento do propósito para o qual ele foi designado.
A antiga aliança
A carta aos Hebreus reforça essa verdade ao afirmar que, ao estabelecer uma nova aliança, Deus tornou antiquada a primeira. E tudo aquilo que se torna antiquado e envelhecido está prestes a desaparecer.
Não se trata de uma interpretação isolada, mas de uma afirmação direta do texto bíblico. A antiga aliança, firmada no Sinai, cumpriu seu papel dentro da história da redenção, mas não foi destinada à permanência.
Até mesmo o tabernáculo, com toda a sua riqueza simbólica, é apresentado como uma parábola. Suas ordenanças foram impostas até o tempo oportuno de reforma. Esse tempo chegou com a nova aliança, marcada pela graça e pela fé.
Libertos para servir de uma nova maneira
Paulo conclui essa compreensão ao afirmar que agora estamos livres da lei, para servirmos a Deus de uma maneira nova, segundo o Espírito, e não segundo a letra. Essa liberdade não é licença para o pecado, mas libertação de um sistema que não podia produzir vida.
Cristo aboliu a lei dos mandamentos na forma de ordenanças porque cumpriu aquilo que a lei apenas apontava. O fim da lei não é o caos moral, mas a revelação plena da justiça que vem pela fé.
Reconhecer o caráter transitório da lei é essencial para uma compreensão saudável do evangelho. Quando a lei é mantida além do seu propósito, ela deixa de conduzir a Cristo e passa a competir com ele.
A lei foi um instrumento temporário em um plano eterno. A promessa permanece. Cristo é o cumprimento dessa promessa. E a nova aliança nos chama a viver não sob tutela, mas em maturidade espiritual, firmados na graça e na fé.
TEXTO BASEADO NO LIVRO “O CAMINHO DA OBEDIÊNCIA” DE LUCIANO SUBIRÁ, ADQUIRA JÁ NA LOJA.ORVALHO.COM