A Escritura apresenta o novo nascimento como o início de um processo, não como seu ponto final. Assim como acontece na dimensão natural, quem nasce de novo começa como criança e precisa de alimento adequado para crescer. Pedro expressa isso de forma clara ao exortar os crentes a desejarem o genuíno leite espiritual, para que, por meio dele, lhes seja concedido crescimento para a salvação. O nascimento é real, mas o amadurecimento precisa ser desenvolvido.
O Novo Testamento recorre com frequência às etapas do crescimento humano para ilustrar o desenvolvimento espiritual. Paulo afirma que devemos crescer até alcançar o estado de pessoa madura, à estatura da plenitude de Cristo, para não permanecermos como crianças. O autor de Hebreus segue a mesma linha e acrescenta um elemento importante: cada estágio do crescimento exige uma dieta apropriada. Há um alimento próprio para os que ainda são crianças e outro para os que chegaram à maturidade.
Essa distinção ajuda a entender a exortação feita aos cristãos de Corinto. Paulo afirma que não pôde falar com eles como pessoas espirituais, mas como carnais, como crianças em Cristo. Por isso, ofereceu leite, e não alimento sólido. O ponto não era apenas o passado deles, mas a condição presente: ainda não podiam suportar comida sólida porque continuavam carnais. O apóstolo estabelece, assim, uma equivalência clara entre carnalidade e infantilidade espiritual.
A diferença entre o cristão espiritual e o cristão carnal não está no fato de um ser convertido e o outro não. Ambos nasceram de novo. A distinção está na inclinação que governa a vida de cada um. O espiritual é aquele que vive inclinado para o Espírito, permitindo que ele conduza pensamentos, decisões e atitudes. O carnal, por sua vez, embora tenha recebido nova vida, ainda se deixa governar pela velha natureza, andando segundo padrões meramente humanos.
Esse contraste fica evidente no comportamento. Paulo aponta ciúmes e brigas como evidências de carnalidade, lembrando que essas atitudes fazem parte das obras da carne, em oposição ao fruto do Espírito. O comportamento, portanto, revela o nível de maturidade espiritual. Crescer não significa apenas acumular conhecimento, mas mudar a forma de viver.
Crescimento exige tempo, mas também resposta
Jesus ensinou que o Reino de Deus se assemelha a uma semente lançada na terra. Ela germina, cresce e frutifica, ainda que o agricultor não compreenda plenamente como isso acontece. Primeiro surge o broto, depois a espiga e, por fim, o grão cheio. Há processos e há tempo.
Essa verdade explica porque as Escrituras alertam contra colocar recém-convertidos em posições de liderança. O problema não está na experiência da conversão, mas na ausência de maturidade. Assim como um bebê ainda não desenvolveu anticorpos suficientes, o novo convertido ainda precisa de tempo para fortalecer-se espiritualmente.
Contudo, o simples passar dos anos não garante crescimento. O autor de Hebreus repreende aqueles que, apesar do tempo decorrido, ainda precisavam aprender os princípios elementares da fé. Isso revela que maturidade não é apenas uma questão cronológica, mas relacional e prática. Ela envolve resposta à Palavra, exercício espiritual e disposição para avançar.
A importância da consciência espiritual
Além do crescimento, há outro fator decisivo para a inclinação correta da vida cristã: a consciência espiritual. Paulo ora para que os filipenses cresçam não apenas em amor e conhecimento, mas também em percepção. Conhecimento informa, mas percepção discerne. Juntos, eles capacitam o cristão a aprovar as coisas excelentes e a manter uma conduta íntegra.
A ceia do Senhor ilustra bem esse princípio. Ela foi instituída como um memorial, não porque Cristo pudesse ser esquecido, mas para manter viva a consciência espiritual do que ele fez. O memorial não serve apenas para recordar fatos, mas para preservar o peso espiritual deles na vida cotidiana. Quando essa consciência se enfraquece, o cristão torna-se vulnerável à inclinação da carne.
O mesmo princípio aparece em outros memoriais das Escrituras. Quando Josué ergueu pedras após a travessia do Jordão, o objetivo não era apenas registrar um evento histórico, mas manter viva a consciência da ação de Deus entre o povo. José resistiu ao pecado porque tinha consciência da presença do Senhor. Onde essa consciência é preservada, há força para dizer não à carne.
Pedro retoma esse ensino ao afirmar que Deus já nos concedeu tudo o que diz respeito à vida e à piedade. As promessas divinas nos tornam participantes da natureza divina, capacitando-nos a escapar da corrupção do mundo. Ainda assim, há uma responsabilidade clara: desenvolver virtudes como domínio próprio, perseverança e amor. Essas qualidades não apenas precisam estar presentes, mas crescer continuamente.
Quando essa consciência espiritual se perde, o resultado é uma espécie de cegueira. Não se trata de esquecimento literal, mas de perda de percepção. Quem deixa de viver à luz do que Cristo fez por si tende a inclinar-se novamente para a carne. Por outro lado, quem preserva viva essa consciência avança em direção à vida.
Inclinação, maturidade e escolha
A inclinação para o Espírito ou para a carne não é fruto do acaso. Ela é influenciada pelo nível de maturidade espiritual e pela preservação de uma consciência viva das realidades espirituais. Ambas não surgem automaticamente, mas são resultados a serem buscados.
É por isso que os apóstolos insistem tanto em lembrar verdades já conhecidas. Quando a maturidade cresce e a consciência espiritual é preservada, a inclinação correta torna-se natural. A vida cristã passa a ser marcada não pela instabilidade da infância espiritual, mas pela firmeza de quem aprendeu a andar segundo o Espírito.
Diante disso, o que devemos fazer, de forma prática, para alcançar essa maturidade e preservar uma consciência espiritual viva? É a partir dessa resposta que a inclinação da nossa vida será definida.
TEXTO BASEADO NO LIVRO “O CAMINHO DA OBEDIÊNCIA” DE LUCIANO SUBIRÁ, ADQUIRA JÁ NA LOJA.ORVALHO.COM